Basta olhar em volta. A cada problema na Ponte Rio-Niterói, a cidade vive um dia de trânsito travado nas ruas do Centro, filas intermináveis nas barcas, engarrafamentos quilométricos até a Região Oceânica, ou seja, Niterói para e paga um preço alto por seu crescimento desordenado e a proximidade com o Rio de Janeiro. Enquanto os investimentos aumentaram, as empresas buscaram ganhar mercado e expandir seus negócios freneticamente nos últimos anos, o poder público não acompanhou o mesmo ritmo. O resultado se vê nas ruas. Um balanço sobre os investimentos esperados para 2010 mostra que falta uma política de investimentos em transporte de massa.
Em meio ao caos que se instalou nas ruas da cidade, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) deve convocar, ainda esta semana, representantes da concessionária que administra a via e dos governos estadual e de Niterói e São Gonçalo para discutir o problema. Na quinta-feira, o deputado estadual Comte Bittencourt (PPS) pediu ao Ministério Público Federal (MPF) que acompanhe o funcionamento da concessão.
“Foram dois dias em que a cidade parou. Faltou capacidade à concessionária para reagir aos problemas. Encaminhei a situação à Comissão de Transporte da Alerj para que seja convocada uma audiência pública para apurar as irregularidades. Não dá para Niterói e São Gonçalo pararem toda vez que houver um problema na Ponte. Não sei se foi a melhor ideia a criação dessa quarta via de rolamento. Temos que reavaliar o serviço prestado”, afirmou o parlamentar.
Durante a semana, os problemas no trânsito foram o assunto principal na Câmara de Vereadores. Os parlamentares discutiram os reflexos da interrupção do fluxo na Ponte Rio-Niterói nos principais corredores viários da cidade, bloqueando também a passagem dos motoristas de outros municípios que trafegam para o Rio ou Niterói. Um grupo de vereadores anunciou que pretende convocar representantes da concessionária CCR Ponte, das Barcas S/A e secretarias de estadual e municipal de Transporte para a elaboração de um plano de contingência em casos como ocorridos na semana passada.
A CCR Ponte, concessionária que administra a via, informou que a quarta via de rolamento está em operação há nove anos da Praça do Pedágio até o Vão Central e que, apenas no ano passado, a ação foi estendida para toda a Ponte. Segundo a CCR, depois da implantação da quarta faixa, houve uma diminuição de 65% dos acidentes na pista e um aumento de 32% na velocidade média de tráfego.
Sobre o plano de contingência, a CCR informa que faz ações interruptivamente para manter as condições normais de tráfego. Segundo a empresa, são realizados 85 atendimentos, entre eles 50 carros são guinchados.

Enquanto não há mudanças, NitTrans sugere uso de barcas
Questionado sobre quais alternativas os moradores de Niterói têm quando a Ponte Rio-Niterói estiver fechada, o presidente da Niterói Transportes e Trânsito (NitTrans), Sérgio Marcolini, chegou a sugerir que a população faça uso das barcas.
“Niterói é muito dependente da ponte, e isso se irradia pela cidade inteira. A alternativa é não sair de carro, optar pelas barcas. Quando o acidente é maior o engarrafamento passa do túnel”, admitiu Marcolini, que afirmou ainda ser necessário oferecer um bom sistema de transporte coletivo regional para depois estudar a implantação de rodízio de carros, como ocorre em São Paulo.
A NitTrans informou que implanta faixas reversíveis nas avenidas Roberto Silveira e Marquês do Paraná em dias que há problema na Ponte. E que a implantação do sistema de transporte de massa proposto pelo arquiteto Jaime Lerner, os BRTs (Bus Rapid Transit), vai facilitar o trânsito. Atualmente, a NitTrans faz o levantamento e orçamento de imóveis para desapropriação, equipamentos e outros custos que precisam ser previstos para a fase de implantação.
A Prefeitura informou ainda que este ano, o sistema de sinalização da Região Oceânica terá condições de operar monitorando eletronicamente, como já acontece nos principais corredores viários da Zona Sul e Alameda, facilitando a criação de corredores livres na cidade.
O que os especialistas dizem*
O engenheiro estrutural do Crea-RJ Antônio Eulálio Pedrosa Araújo participou da equipe que projetou a Ponte Rio-Niterói e aponta algumas sugestões para o trânsito.
“Uma ponte baixa pode ser projetada saindo de São Gonçalo e desembocando na Rodovia Washington Luiz e Via Dutra. A verba para a construção poderia sair da própria administração da Ponte, que devia estar nas mãos do Estado, para que o investimento realizado pudesse ser recuperado e reinvestido em novas soluções e melhorias. Outra opção seria ligar as duas pontas mais próximas da Baía de Guanabara, num acesso centro-a-centro exclusivo para veículos leves, o que certamente diminuiria o fluxo na Ponte em momentos de pico. Estas seriam rotas de escape para o excesso de veículos que se acumulou durante os 50 anos de construída a Ponte”.
Já o professor da Universidade Federal Fluminense Walber Paschoal, mestre doutor em engenharia do transporte, disse que o meio coletivo é a única solução viável para cidades com rede rodoviária radial, que desembocam uma única via, como Niterói, onde todos os acessos para o Rio convergem para a Ponte.
“Investir em alternativas para escoamento de veículos é uma solução paliativa. A Linha Amarela atingiu em um ano a demanda projetada para dez. A questão é motivar o motorista a deixar o carro na garagem com transporte coletivo de qualidade. O veículo mais interessante para esse caso seria o metrô, com ligação direta para o Rio, porque ele é um meio de transporte que faz com que o usuário deixe o carro em casa por vontade própria, já que oferece conforto e rapidez. Um grande problema é a frequência irregular do transporte coletivo em Niterói. O poder público tem que ter controle sobre as linhas, fiscalizar e cobrar o cumprimento de horários e trajetos”.
Sem evolução – Para Abílio Borges, conselheiro do Crea-RJ, a rede de transportes de Niterói está parada no tempo.
“Quando construímos a nossa Ponte, Portugal estava construindo a Ponte Salazar, sobre o Rio Tejo, ligando Lisboa a Almada. De lá para cá os portugueses fizeram outra ponte para desafogar o trânsito na capital, a Vasco da Gama, e criaram um sistema férreo por baixo da Ponte Salazar. Ou seja, eles evoluíram, nós não. Com o crescimento do número de veículos é lógico que a cidade precisa de outros acessos para carros e ônibus, disso não há dúvidas. A questão é só o posicionamento desses acessos ser estratégica, para que o trânsito possa fluir sem gargalos”, concluiu o conselheiro.
*Simone Schettino